28.
O DANÚBIO AZUL
(fatos ocorridos entre 1965
e 1966)
Fizemos
tanto barulho na cabine que, graças a Deus, acabamos atraindo
a atenção de um oficial alto, moreno, cabelos cortados bem
rentes e óculos redondos bem pequenos. Entrou e perguntou-nos
o que acontecia. Para nossa felicidade, depois de tentarmos
falar até alemão, descobrimos que ele falava italiano. Como
tínhamos aprendido o italiano, tudo ficou fácil. Explicamos
para o oficial que o passaporte era diplomático e que os soldados
não podiam abrir nossa mala. O oficial pediu desculpas e,
depois de carimbar nossos passaportes, nos deu boas vindas
à Iugoslávia.
Esperei
o trem sair daquele campo para respirar aliviado. Ao anoitecer
chegamos a Belgrado e lá estava o infalível motorista nos
esperando. Desta vez não estava nevando tanto e, com certeza,
aproveitaríamos mais a estadia. Nosso primeiro passeio foi
a um monte próximo a Belgrado, onde havia um monumento. No
caminho ainda poderíamos ver o local onde um avião de passageiros
se chocou com o monte na década de quarenta. O monumento é
todo em mármore com seis figuras gigantescas representando
os seis povos que se uniram (na marra) para formar a Iugoslávia.
Creio
que hoje eles já se separaram por completo. O monumento é
belo, mas o que mais nos impressionou não foi o monumento,
nem o monte, nem onde o avião bateu, mas as mais de duzentas
mil balas encravadas no monumento durante uma batalha na segunda
guerra mundial, entre os alemães e a resistência iugoslava.
Foi a mais impressionante marca da segunda guerra mundial
que eu vi em minha vida. Como me considero um estudioso do
assunto, foi um achado e tanto.
Nossa
segunda visita foi a um parque, que tem um castelo em seu
centro, banhado pelo rio Danúbio. Este lugar foi transformado
em museu ao ar livre, onde encontrei peças de artilharia e,
até tanques panzer alemães da segunda grande guerra. Nem acreditei
no que vi ali. Mas o que me deixou perplexo foi o rio, que
apesar de imortalizado na valsa Danúbio Azul, é completamente
negro. Vai ver que ele é azul em outro lugar. Outro
bom passeio foi à embaixada americana, uma adorável ilha capitalista
naquele inferno vermelho. Ali pudemos comprar cigarros americanos,
assistir a uma comédia (Pillow Talk) e, até, comer uma deliciosa
pipoca americana.
Nas
ruas de Belgrado não tínhamos coragem de comprar nada, até
os cigarros eram russos, intragáveis, mas acabei comprando
uma câmera fotográfica profissional russa. Devíamos aproveitar
porque em algumas semanas voltaríamos a Roma (outra vez!),
de onde partiríamos para o Brasil. Assim, depois de muito
passearmos, embarcamos de volta a Roma. A companhia aérea
estatal nos serviu mais uma penca de bananas verdes, mas desta
vez estávamos prevenidos e tínhamos levado os nossos lanches,
que incluía até uma Coca Cola.
Descemos
em Roma e, ao invés de embarcarmos para o Brasil, resolvemos
passar mais alguns dias ali. Meus pais deviam estar arrancando
os cabelos. Revisitamos todos os recantos daquela cidade,
matando a saudade de nossas trattorias preferidas. Só não
voltamos ao Vaticano, que nos cobrava um dólar até para ver
um retrato do papa, exploradores. Não poderia continuar católico
depois de ver no Vaticano o maior tesouro do planeta, enquanto
o mundo passava fome.
Como
o papa poderia ser o representante de Jesus se este tinha
apenas uma túnica e um par de sandálias? Comecei a pensar
que deveria haver uma religião que não se preocupasse em reunir
tantas riquezas. Antes de embarcar fui à Fontana dei Trevi
para jogar uma moeda e desejar voltar a Roma um dia. Dizem
que funciona, mas comigo até a presente data... Embarquei
com o pensamento de que precisava voltar um dia, para fazer
tudo aquilo de novo, mas com a consciência de que isto era
muito difícil de se realizar. Estava feliz por retornar ao
Brasil, mas uma certa melancolia tomou conta de mim. Arivederci
Roma...